GAME11: por que a gestora está trocando IPCA por prefixados?

GAME11 fez uma aposta ousada em prefixados com a Selic em 15%. E agora, o que esperar?

O GAME11, o FII Guardian Multiestratégia Imobiliária I, acaba de divulgar seu relatório gerencial de fevereiro de 2026 — e os números merecem atenção. O fundo distribuiu R$ 0,100 por cota, com pagamento previsto para 20 de março, representando um dividend yield mensal de 1,10% com base no preço de fechamento de R$ 9,10 na data-com. O valor patrimonial da cota está em R$ 9,60, enquanto o mercado negocia a cota com um deságio de 5%, no múltiplo P/VP de 0,95x. Com um portfólio 100% alocado em ativos-alvo, reservas robustas e a 3ª emissão de cotas recém-encerrada, a pergunta que fica é: esse nível de dividendo é sustentável — e pode até subir?

APRESENTAÇÃO DO FUNDO

O FII Guardian Multiestratégia Imobiliária I, ticker GAME11, é administrado pelo Banco Daycoval e gerido pela Guardian Gestora, gestora independente fundada em 2020 com mais de R$ 9,3 bilhões sob gestão distribuídos em 35 veículos de investimento.

Trata-se de um fundo de papel com essência em crédito imobiliário predominantemente high grade (baixo risco de crédito), investindo majoritariamente em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e, de forma complementar, em cotas de FIIs. A estratégia é dividida em dois vértices: BETA (60% a 90% do portfólio), composto por ativos de maior senioridade e garantias robustas, e ALPHA (10% a 40%), com perfil de maior retorno potencial. O benchmark é o IMA-B5 + IPCA, com taxa de performance de 20% sobre o que exceder esse índice.

O patrimônio líquido do fundo é de R$ 272,9 milhões, com 21.279 cotistas e 28.426.127 cotas emitidas. O fundo foi lançado em setembro de 2021 e, em fevereiro de 2026, concluiu oficialmente sua 3ª emissão de cotas, que captou R$ 63 milhões — um crescimento de 31% do patrimônio — com anúncio de encerramento publicado em 13 de fevereiro de 2026.

DADOS DA COTA (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)

A cota negocia com um deságio de aproximadamente 5% em relação ao VP marcado a mercado (R$ 9,60). Isso cria uma situação interessante para quem compra agora: ao adquirir a cota abaixo do valor patrimonial, o investidor está, na prática, "pagando mais barato" pelos ativos da carteira e capturando um spread médio mais elevado.

Com base no VP curva de R$ 9,90, o spread médio da carteira está em IPCA + 9,15% e CDI + 3,16%. Se a cota fosse negociada a R$ 9,10, o spread implícito sobe para IPCA + 10,97% e CDI + 4,61% — o que representa uma oportunidade relevante para o investidor de longo prazo.

O risco é que esse deságio persista ou se amplie caso o cenário macro piore ou o sentimento em relação a FIIs de papel continue pressionado.

DIVIDENDOS (PONTO POSITIVO ✅)

O fundo distribuiu R$ 0,100/cota referente ao mês de fevereiro de 2026, com pagamento em 20 de março de 2026. Isso representa um DY mensal de 1,10% sobre o preço de R$ 9,10 na data-com — ou 13,19% acumulado nos últimos 12 meses, equivalente a IPCA + 8,38% em bases comparáveis.

O resultado do mês foi de R$ 0,090/cota — abaixo da distribuição de R$ 0,100. A diferença foi coberta pelas reservas de resultado acumulado, que encerraram o mês em R$ 0,074/cota, nível que a gestão considera robusto.

O resultado menor em fevereiro foi impactado diretamente pelo IPCA, principal indexador da carteira. A combinação dos índices de novembro/25 (0,18%), dezembro/25 (0,33%) e janeiro/25 (0,33%) refletiu nos juros reais recebidos neste mês. O CDI, por sua vez, registrou retorno nominal de 1,00% no mês.

A guidance da gestora para os próximos meses é manter distribuições mínimas de R$ 0,100/cota, com projeções de R$ 0,096 e R$ 0,102 para abril e maio de 2026, respectivamente. Isso demonstra que, mesmo com alguma variação no resultado mensal, o fundo tem reservas e capacidade para sustentar esse patamar de dividendos.

COMPOSIÇÃO DA CARTEIRA (PONTO POSITIVO ✅)

O portfólio do GAME11 está 100% alocado em ativos-alvo, distribuído em 21 ativos: 20 CRIs e 1 FII (o Guardian Hedge Fund — GAHF, que por sua vez investe em outros FIIs e CRIs).

Indexadores predominantes:

  • 66% IPCA
  • 22% CDI
  • 11% Prefixado (expansão recente via CRI Carrefour a 14% a.a.)

Perfil de risco e alocação:

  • 96% Beta / 4% Alpha
  • 78% Core / 22% Tático
  • 86% Corporativo / 14% Pulverizado
  • 95% dos ativos possuem Alienação Fiduciária (AF) como garantia real
  • Duration média: 3,9 anos
  • Adimplência: 100% dos devedores em dia

Tipologia dos imóveis em garantia:

  • 61% Misto, 14% Residencial, 11% Varejo, 11% Logístico, 4% Escritório

Concentração geográfica das garantias:

  • 75% Misto, 17% São Paulo, 7% Mato Grosso

Pulverização de devedores:

  • O maior devedor individual é o cluster "multidevedor" com 42%, seguido por Pulverizado (14%), Carrefour (11%), São Benedito (7%), Almanara (7%), entre outros.

O portfólio é bem diversificado entre setores, indexadores e devedores, com estruturas de garantia sólidas. O ponto de atenção é que 42% do portfólio está concentrado no Guardian Hedge Fund (GAHF), um fundo gerido pela própria Guardian — o que demanda monitoramento quanto à transparência e liquidez dos ativos subjacentes.

MOVIMENTAÇÕES DO MÊS (PONTO POSITIVO ✅)

O principal movimento de fevereiro foi a aquisição de um lote adicional do CRI Carrefour Prefixado, a uma taxa de 14,0% a.a.. Com isso, a exposição a ativos prefixados subiu para aproximadamente 11% do portfólio total.

A decisão foi estratégica: com a expectativa de início de um ciclo de cortes na Selic ao longo de 2026, ativos prefixados tendem a se valorizar (ganho de capital), além de garantir maior previsibilidade de retorno para a carteira. O ativo tem risco de crédito corporativo de alta qualidade — devedor Grupo Carrefour Brasil, com contratos atípicos de locação de 15 anos — e demonstra boa liquidez no mercado secundário.

Também foram alienadas posições pontuais em FIIs listados dentro do GAHF que registraram apreciação relevante no período — entre eles, redução da posição em MXRF11, que valorizou 3,9% no mês e atingiu P/VP de 1,05x. O GAME11 também incorporou ao GAHF um novo ativo: o Guardian Core Residencial (GCORE), um FII de prazo determinado estruturado para aquisição de imóveis residenciais com retorno estimado em CDI + 5,75%.

Os dois ativos "táticos" que haviam entrado no portfólio em janeiro — estruturados como uma espécie de "barriga de aluguel" — foram integralmente alienados à contraparte conforme planejado, com a rentabilidade acordada incorporada ao PU de recompra.

ATUALIZAÇÕES DE CRÉDITO / RISCOS (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)

O relatório indica adimplência de 100% em todo o portfólio de CRIs — nenhum devedor em atraso ou em processo de renegociação. Não há menção a recuperações judiciais, renegociações ou inadimplências no mês.

No entanto, cabe monitorar:

São Benedito (7% do portfólio): grupo com forte atuação no Centro-Oeste (MT), com três séries de CRI na carteira (S.Benedito II, III e IV). As garantias incluem AF de 182 imóveis em 19 empreendimentos, cessão fiduciária de recebíveis de mais de 430 contratos de locação e fundo de reserva. O nível de concentração neste grupo merece acompanhamento.

HBR W (3,46% do portfólio): CRI lastreado na operação do Hotel W São Paulo, com LTV inicial de 75% — o mais elevado da carteira entre os ativos corporativos. Embora as garantias incluam AF das unidades e cessão fiduciária do NOI, o risco do segmento hoteleiro é inerentemente mais sensível a ciclos econômicos.

Comporte (3,77%): classificado como ALPHA — único ativo nessa categoria entre os CRIs — com devedor do setor de transporte (Viação Piracicabana / Comporte Participações). Setor diferente dos demais imóveis da carteira, o que exige atenção diferenciada.

De forma geral, a carteira segue com estruturas de garantia sólidas, e o nível zero de inadimplência é um ponto claramente positivo.

CENÁRIO MACRO (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)

O mês de fevereiro foi marcado por perspectivas de início de afrouxamento monetário no Brasil. A Selic se manteve em 15,0% a.a., mas o mercado consolida expectativa de cortes graduais a partir de março, com projeções de Selic entre 12,0% e 13,0% ao final de 2026.

O IMA-B5 fechou o mês em 8,32% a.a., com recuo de 23 bps em relação aos 8,55% de janeiro — indicando leve compressão das taxas nos vértices mais curtos da curva de juros reais.

As expectativas do Boletim Focus apontam inflação acima de 4,0% para 2026, ainda pressionada por tensões geopolíticas envolvendo EUA e Irã. O IFIX encerrou o mês com alta de 1,32%, acumulando trajetória positiva especialmente nos últimos dias úteis de fevereiro.

Para o GAME11, o cenário macro tem efeitos mistos: a compressão de juros reais reduz o carrego dos CRIs indexados ao IPCA no médio prazo, mas favorece ganho de capital nos ativos prefixados recém-adquiridos. O portfólio majoritariamente IPCA+ tende a ser impactado pela desaceleração inflacionária projetada — o que justifica a estratégia da gestora de elevar a parcela prefixada.

LIQUIDEZ (PONTO POSITIVO ✅)

O GAME11 encerrou fevereiro com média diária de negociações de R$ 165.656,16 — o maior patamar desde março de 2025. No mês, a cota oscilou entre a mínima de R$ 8,97 e a máxima de R$ 9,34, encerrando em R$ 9,06 com variação negativa de apenas -0,33%.

Nos últimos 12 meses, a cota acumula valorização de 11,99% e o preço médio do período foi de R$ 8,62. A crescente atividade no mercado secundário refletiu levemente na base de investidores, que chegou a 21.279 cotistas ao final de fevereiro.

Para um fundo com patrimônio líquido de R$ 272,9 milhões, a liquidez diária de ~R$ 165 mil ainda é modesta — o que pode dificultar movimentações maiores por parte de investidores institucionais. Para o investidor pessoa física, porém, o volume é razoável.

CONCLUSÃO

Fevereiro de 2026 foi um mês de consolidação estratégica para o GAME11. Os três pontos mais importantes para o investidor são:

Primeiro, a distribuição de R$ 0,100/cota foi mantida mesmo com um resultado mensal de apenas R$ 0,090, graças ao colchão de reservas de R$ 0,074/cota — e a gestora confirmou que esse patamar mínimo será mantido nos próximos meses.

Segundo, a 3ª emissão de cotas foi concluída com sucesso, captando R$ 63 milhões e expandindo o patrimônio em 31%. Os recursos estão sendo alocados de forma disciplinada, com destaque para a ampliação da posição prefixada (CRI Carrefour a 14% a.a.) numa aposta consistente com a expectativa de queda de juros.

Terceiro, o deságio de 5% sobre o VP MTM (cota a R$ 9,10 vs. VP de R$ 9,60) representa uma oportunidade de entrada com spread implícito mais elevado — porém, o investidor deve estar ciente da concentração de 42% do portfólio no GAHF, um veículo que ainda está em fase de consolidação e cuja transparência depende da gestora.

Os principais riscos a monitorar são: possível redução do resultado com a desaceleração do IPCA, concentração no GAHF, e a exposição ao Grupo São Benedito (7% do PL), que possui múltiplas séries na carteira com garantias reais, mas exige acompanhamento contínuo.

Isso não é recomendação de investimento.

game11 relatório gerencial fevereiro 2026 pdf
https://fnet.bmfbovespa.com.br/fnet/publico/exibirDocumento?id=1144402&cvm=true

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